terça-feira, 19 de janeiro de 2021

FARMÁCIA DAUDET

 



                   Este prédio foi construído no ano de 1897 pelo Coronel Daudet e conserva as características originais: a mesma frente, as mesmas portas e as prateleiras feitas com madeira torneadas e envidraçadas. O prédio pertenceu ao Sr. Lourival Gondin filho do Coronel Daudet. Hoje se encontra na posse de Dr. Giovanni, filho do Sr Lourival Gondin. (História de Jardim: suas contradições e seu folclore) "Chamavam-no de Dudé, uma forma aportuguesada mais simples, portanto, do francês Daudet, nome que dera à sua farmácia em Jardim e à qual se ligava tão intimamente."(Jardim: sua história e sua gente, p.10)


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

MONSENHOR ALCÂNTARA

 

                                         Padre Alcântara, depois Monsenhor Alcântara

                Jardim homenageia o Padre Alcântara com uma rua em seu nome.

 "Dentre os vários (vigários) que passaram por Jardim, o que mais se destacou foi o Padre Manuel Francisco de Alcântara, um jovem sacerdote com que Várzea Alegre presenteou Jardim. Durante os vinte e sete anos de seu vicariato em 4 de janeiro de 1925 e encerrado em julho de 1952. O padre Alcântara realizou várias obras tanto no campo espiritual quanto no social. Logo que tomou posse do cargo de vigário, uma de suas primeiras provi-dências foi a reconstrução da igreja, inclusive o levantamento da outra torre que faltava, do lado direito de quem entra.

                "Fundou a Pia União das Filhas de Maria, (...) a Irmandade de São Francisco Xavier, a Irmandade do Santíssimo Sacramento, a Congregação dos Marianos, a Cruzada Eucarística e a Sociedade São Vicente de Paulo, (...) o Círculo Operário de Jardim, o Externato santo Antonio e a Cooperativa Rural de Jardim, (...) fundou capelas nos distritos de Santos Dumont (Jardim Mirim) e Baixio do Couro, povoado fundado por ele, nas proximidades de Jati. (...) Foi no povoado de Baixio do Couro, depois denominado Penaforte, que o padre Alcântara passou os últimos dias de sua vida. Ali, pobre e esquecido dos paroquianos, faleceu e foi sepultado. Nos últimos anos de sua vida recebera o título de Monsenhor.(...)

              Monsenhor Alcântara, não obstante ter sido um padre temperamental, político, preconceituoso, foi, indubitavelmente, um grande sacerdote a quem Jardim muito deve (...). Foi ainda durante a gestão do Padre Alcântara que o povo de Jardim assistiu comovido à benção da estátua de Nossa Senhora das Graças." 

FONTE: Jardim: sua história e sua gente, p. 40,41


LIVROS EXCLUSIVOS SOBRE JARDIM

1. CIDADE DE JARDIM: HISTÓRIA ILUSTRADA



2. JARDIM: SUA HISTÓRIA E SUA GENTE


3. JARDIM: SUAS CONTRADIÇÕES E SEU FOLCLORE



4. PINTO MADEIRA, NEM HERÓI NEM VILÃO


 


5. LAMPIÃO E OS MENINOS




6. RANGEL ESCULTOR: UM ARTISTA QUE VEIO DE JARDIM



7. HISTÓRIA ECLESIÁSTICA DE JARDIM



8. POR UMA ÉTICA DA ESTÉTICA



Por José Márcio da Silva.




ESCOLAS DE JARDIM - ZONA URBANA

1. ESCOLA GOVERNADOR ADAUTO BEZERRA



            "A criação da Escola deu-se por força do Decreto nº 11.770, de 4 de março de 1976, e com a denominação de Escola de 1º Grau, ministrava ensino até a  8ª série. Em 15 de janeiro de 1985, o decreto 17.035, alterando o decreto anterior modificou as estruturas da escola, passando a denominar-se Escola de 1º e 2º Graus, e a ministrar também ensino de 2º grau." (Jardim: sua história e sua gente, p. 64)

 2. ESCOLA ROMÃO SAMPAIO

                            (Escola Romão Sampaio. Foto cedida por Iracema Alves de Figueiredo)

            "A Escola de 1º Grau Dr. Romão Sampaio teve como embrião as Escolas Reunidas de Jardim, fundadas em 1930 e depois denominadas Grupo Escolar de Jardim. Em 1970 na gestão do Prefeito Municipal Clodoaldo Xavier Sampaio, foi construída uma unidade escolar na rua José Marrocos, para onde fora transferido o Grupo Escolar de Jardim, porém com a denominação de Grupo Escolar Dr. Romão Sampaio. (Jardim: sua história e sua gente, p.63,64)

3. CENTRO EDUCACIONAL PADRE ALDEMIR

                    (Centro Educacional Padre Aldemir. Foto cedida por Iracema Alves de Figueiredo)

            "Em 1960 realiza-se o tão sonhado desejo do deputado Wilson Roriz, de conseguir com as autoridades do Estado um ginásio (...) para sua terra. (...). O Dr. Manuel Bonfim Peixoto, foi convidado (...) a assumir a direção daquela primeira casa de  instrução secundária (...). Na mesma ocasião, foi discutido o nome que seria dado ao novo Ginásio, (sendo escolhido o do) Padre Miguel Coelho.(...) Como o prédio onde deveria funcionar o Ginásio ainda se encontrava em construção, as aulas deveriam iniciar-se na sede do Grupo Escolar de Jardim. O calendário marcava 07 de março de 1960. Uma forte chuva caía sobre a cidade naquela manhã inesquecível, quando se via pela primeira vez grupos de alunos se dirigirem para assistir à aulas num Ginásio. (...) A matrícula inicial do Ginásio Padre Miguel Coelho foi inicialmente esta: 36 alunos na 1ª série e 11 alunos na 2ª série.  (Jardim: sua história e sua gente, p.59,60,61)

                O Dr. Bonfim inesperadamente fora transferido para outra cidade. "O Dr. Wilson Roriz (ofereceu) a direção do Ginásio à Congregação das Filhas de Santa Tereza de Jesus, (...) de Crato. Por esta época, a Superiora Geral era a Madre Tereza Machado, que depois de ouvi-lo, prometeu atender apontando-lhe duas grandes razões: Jardim era a cidade natal da fundadora de sua Congregação, Madre Ana Couto, e aquele pedido estava sendo feito por um sobrinho desta.

                Em 25 de março de 1969, recebe o nome de Escola Normal Padre Ademir. E em 1977, passa a se chamar Centro Educacional Padre Aldemir.


4. ESCOLA SENADOR CARLOS JEREISSATI


5. CRECHE CLODOALDO XAVIER


6. CRECHE TIO MICKEY


7. SALÃO PAROQUIAL

                            (Salão Paroquial. Foto cedida por Iracema Alves de Figueiredo)


8. ESCOLINHA RECANTO FELIZ


9. ESCOLAS REUNIDAS ANA LÍGIA AYRES DE ALENCAR

                         (Prédio onde teria funcionado as Escolas Reunidas.)

            "Em 1930 chegou a Jardim a professora Ana Lígia Aires de Alencar, filha da terra - diplomada pelo Colégio das Dorotéias de Fortaleza. Culta, inteligente, treinada na mais modernas técnicas de ensino da época, a jovem e idealista professora iniciava suas atividades docentes numa exígua sala, cujo mobiliário era formado por uma mesa, dois bancos e alguns tamboretes trazidos pelos próprios alunos. Dias depois o então Secretário de Educação do Estado, Professor Moreira de Sousa, criava as Escolas Reunidas de Jardim e nomeava sua primeira diretora a professora Lígia Aires, fundadora de referida escola. A recém criada escola só ministrava ensino primário até a 3ª série e, em virtude de sua reduzida matrícula, muitas crianças de Jardim deixaram de frequentar a escola pública."(Jardim: sua história e sua gente, p. 66)

                "Em 1947, as Escolas Reunidas de Jardim foram elevadas à categoria de Grupo Escolar de Jardim por ato do Governador Faustino de Albuquerque, em 30 de setembro. A partir daí, a meninada de Jardim passou a ter ensino de bom nível, até a 5ª série, ministrado por competentes e dedicadas professoras: Beatriz Neves, Lígia Aires, Vandira Roriz, Djanir Luz Gondin, Maria de Lourdes Filgueiras, Pedrina Filgueiras e Luisita Coutinho, tendo como diretora Maria Castriciana Couto. (idem ,p.66)

                Abaixo segue texto de autoria da própria Lígia Alencar:

MINHA VIDA DE PROFESSORA

                                                                        Lígia Alencar

                Lecionei durante 37 anos em minha cidade natal - Jardim-CE.

                Primeiro de março de 1930 - meu primeiro dia de aula. Vinha de um colégio ótimo, o das Dorotéias, o qual me preparara bem para ensinar em todo o curso primário, isto é, da 1ª à 5ª série, quando os alunos faziam o exame de admissão ao ginásio. Conhecia todas as noções de Pedagogia e Didática daquela época, e trazia meus sonhos e fantasias de ter uma boa escola, onde as crianças aprendessem pela técnica mais avançada. Porém meus sonhos foram por terra. Recebera convite para lecionar em Crato ou Larvas(da Mangabeira), mas dei preferência a minha terra que,  naquele tempo, se ressentia da falta de professores. O Jardim de então não dispunha de um prédio escolar e muito menos de mobiliário e material didático. Deram-me, pois, uma sala exígua, que mal comportava uma mesa comprida, 2 bancos  e alguns tamboretes trazidos pelos alunos. Ainda assim, não desanimei . Tinha vocação e esta me ajudou em todas as dificuldades que tive de enfrentar no início de minha carreira.

                Que fiz eu? Fui examinar as 30 crianças que se apresentaram à matrícula. Pela leitura e operações aritméticas dividi os alunos em duas séries: 1ª e 3ª. A seguir, indiquei o livro de autoria de Erasmo Braga para a leitura da 3ª, enquanto adotei uma leitura intermediária para a 1ª, pois os alunos quase não liam. Não havia quadro negro, pelo que ditei para a 3ª um exercício ligeiro, de linguagem para ser feito em casa. Quanto à 1ª limitei-me a escrever em seus cadernos as duas operações em duas parcelas.  E assim encerrei o primeiro dia de aula. Mais fiquei a olhar as paredes nuas de minha sala e pus-me a formar projetos para o futuro. Ainda lecionei 6 dias no mesmo local. Comecei a fazer ditados, bilhetes, pequenos testes. À hora em que a 3ª série escrevia, os alunos desta ocupavam os bancos, ao redor da mesa, enquanto a 1ª preparava as lições. Nem mapas, nem quadros de linguagem, nem de aritmética. Então eu tive que  recorrer à velha tabuada, propondo-a em ligeiros cálculos. E assim foi durante os 6 dias que se seguiram.

                Uma semana depois, chegava o diário oficial com o decreto reunindo as três cadeiras existentes e eu fora nomeada diretora das Escolas Reunidas de Jardim. Aceitei o cargo com certa relutância, pois não é de meu caráter mandar. Preferia responsabilizar-me por minha classe e obedecer às ordens de outro colega. Afinal, fiquei ensinando e dirigindo ao mesmo tempo, o que fiz durante 7 anos.

                O Sr. Prefeito José Caminha de Anchieta Gondim, alugou um prédio mais confortável. Arranjei um quadro negro e passei a expor por meio de ofícios, semanalmente, ao Secretário de Educação, a falta de mobiliário e material necessário. O Secretário de então, o ilustre professor Moreira de Sousa, atendeu a meus pedidos. Começaram a chegar as primeiras carteiras, alguns mapas e quadros.

                Em 1931, as Escolas Reunidas de Jardim, contavam com 4 professoras e passaram a funcionar no prédio, hoje sala das audiências. Ali permaneceram até 1947, quando foi inaugurado o primeiro prédio do Grupo Escolar.

                Durante a minha gestão como diretora das Escolas Reunidas dei-me muito bem com minhas colegas, distinguindo Maria Augusta Couto Gouveia, que foi meu braço direito, dirigindo  as festividades escolares que  fazíamos nos grandes da Pátria. Além das dramatizações, às sextas-feiras, dávamos aula de religião e de recitativos e, aos sábados, de trabalhos manuais.

                Tive alunos insubordinados, porém, com jeito conseguia levá-los e nunca expulsei um durante o longo período de 37 anos. Sempre procurei que aprendessem, sendo minha norma repetir a matéria quando não entendiam bem. Cultivava a linguagem escrita, fazendo todos os dias ditados ou bilhetes, cartas, descrições de quadros, etc. Também me esforçava na matemática, corrigindo no quadro os exercícios de casa, para o que chamava alunos a fazê-los. Praticava a análise morfológica e sintática, o que facilitava o exame de admissão ao ginásio.

                Em nosso grupo, as professoras acompanhavam a classe da 1ª a 5ª série. Isto tinha a vantagem da mestra continuar o ensino do ano anterior com mais eficiência.

                Desde cedo manifestei vocação para o magistério. Antes mesmo de estudar no colégio, já ensinava aos irmãozinhos e parentes as primeiras letras, lá em nossa casa. E na minha classe me sentia feliz transmitindo o saber. Quantos brasileiros cheguei a alfabetizar! Era um prazer para mim ficar em meio da criançada, dando preferência aos pequeninos. Como tenho saudades de minhas aulas! Como tenho saudades de nossos recreios, de nossas festas! Nos dias de marcha, como na parada de 7 de setembro, eu comandava sempre os pequenos, que me davam muito trabalho, mas me faziam rir, quando erravam o passo. Tudo era muito divertido e alegre. Foi um tempo feliz. Só não gostava das provas dos exames de fim de ano porque tinha de contar os erros, avaliar a matéria  e reprovar alguns. Por último, já adotava os testes nos Estudos Sociais, mas a prova de Português dava muito o que pensar. Porém, tudo terminava bem, e tenho o prazer de confessar que os alunos aproveitavam meus reforços e todos saíram do curso primário com base para a vida prática. Hoje, no declínio dos anos, me resta a consciência do dever comprido. É o que tenho a dizer do meu tempo de professora, a quadra mais alegre de minha existência. (Jardim: sua história e sua gente) 

10. GRUPO ESCOLAR CÔNEGO PENAFORTE


                                   (Ilustração feita por José Márcio da Silva) 

                  Nasceu, em Jardim, o cônego Raimundo Ulisses Penafort. Foram seus pais Manuel Francisco Cavalcante de Albuquerque Melo e dona Generosa Cândida Brasil de Albuquerque Penafort. Ordenou-se em 2 de maio de 1880 no seminário do Carmo, em Belém do Pará, sob o episcopado de D. Antônio de Macedo Costa. Colaborou em jornais do Ceará e do Pará, escreveu várias obras de cunho religioso e histórico que lhe abriram as portas de muitas associações literárias e científicas. (Efemérides do Cariri, p.140)

                O Cônego Penafort, como era mais conhecido, estudou no Seminário de Crato, tendo-se ordenado Padre em Belém do Pará, no dia 2 de maio de 1880, pelo então Bispo do Pará, D. Antônio de Almeida Costa. Em 1892 foi feito Cônego. Exerceu o vicariato de 1902 a 1909. Em 25 de abril de 1921, aos 65 anos de idade, encontrou a morte no Leprosário Paraense de Tucunduba. Antes de morrer, sofrera sérias perseguições por parte de políticos da época, a ponto de ser banido de Vigia em uma piroga com três remadores. Foi homem de invejáveis dotes intelectuais, um dos maiores etnólogos brasileiros, além de grande orador. Jornalista destemido e escritor de escol, colaborou com inúmeras associações e institutos culturais, não só do Brasil como do exterior. Foi membro correspondente da Academia Cearense de Letras, de cuja entidade é patrono da cadeira 32, membro cooperador de 'La Union Católica del Peru', da 'Academia Poliglota da Itália' e da 'Societé Asiatique de Paris'. Em vida foi amigo dos pobres e das crianças, o que demonstra quão puras e desinteressadas eram suas intenções. (Jardim: sua história e sua gente p. 132)

                Autor de trabalhos notáveis que o tornaram conhecido em toda a América Latina e em alguns países da Europa, o Cônego Penafort se destacou como pesquisador das nossas origens e suas teorias ainda hoje são estudadas pelos historiadores.

                Foi sócio correspondente da Union Des As. de La Presce Ibero Ameriquaino, membro cooperador da Arcádia Romana na Itália, da Soité Asiatique des Langues Orientales Vivantes, de Paris. Todas essas associações culturais euro-americanas recebiam constantemente trabalhos do Cônego Penafort, que nesta época, 1890, morava em Belém do Pará, onde se ordenou e exerceu sacerdócio.


                Este foi um dos maiores escritores nordestinos, cuja contribuição para os fundamentos da origem dos povos primitivos que habitavam a América Latina ainda hoje discutido. Deixou para a posteridade trabalhos de grande valor, como: Brasil Pré-Histórico, Filologia Comparada, Estudo sobre a Poligenésia da língua Tupi, Esplendores do Culto Mariano e O Novo Imortal. (Jardim: sua história e sua gente p.190)

                O Cônego Brito, 2º sucessor do Cônego Penafort, em hierarquia, escreveu a respeito do grande sacerdote jardinense: "Foi homem de Deus, das letras e das dores, tal qual outro Cristo". (Jardim: sua história e sua gente, p.132)

11. EDUCANDÁRIO PROFESSOR LIMA BOTELHO


    
            "Em 1954 surgiu um raio de esperança na mocidade de Jardim, com a chegada do Promotor de Justiça Dr. Elias Leite Fernandes que, com os mesmos propósitos do Dr. Lima Botelho, pretendia fundar um colégio de grande porte na terra de Barbosa de Freitas. Fundou então o Colégio Lima Botelho numa justa homenagem àquele que fizera de Jardim um centro evolutivo de cultura nos idos dos anos vinte. O Colégio Lima Botelho teve curta duração, porém deixou um saldo bastante positivo, porquanto despertou nos jardinenses o desejo de se prosseguir na luta para a criação de um colégio que viesse de fato desenvolver as potencialidades dos jovens jardinenses."

12. COLÉGIO 24 DE ABRIL

             (Colégio 24 de Abril. Estava localizado abaixo da Praça Nossa Senhora das Graças)
                       (Local atual onde teria funcionado o Colégio 24 de Abril)

               Transcorria o ano de 1916, quando chegou a Jardim um novo Juiz de Direito - o Dr. Francisco de Lima Botelho, que, sentindo a falta de uma casa de  educação para forjar os espíritos jovens, funda num prédio vizinho à sua residência, na Beira do Rio, o Colégio 24 de Abril. (...) As ruas de Jardim se embelezaram com jovens vindos de Porteiras, Barbalha, Crato, Juazeiro, Brejo Santo, Macapá (Jati), Mauriti, Acopiara e Exú no Estado de Pernambuco, que para ali foram em busca de conhecimentos que eram ministrados em nível elevado por mestres de comprovada competência. Em 1923, o colégio do Dr. Botelho, como era conhecido, cerrou suas portas, e Jardim viu passar o período áureo de sua história.

                Sobre o Colégio 24 de Abril, o Dr. Napoleão Tavares Neves diz: "O Dr. Lima Botelho era um notável educador na verdadeira acepção do termo. Seu estabelecimento era polivalente e usava métodos muito objetivos, ensinando na prática inclusive música instrumental, oratória, declamação, civismo e muita coisa mais. (...) E mostrando o seu pioneirismo, o Colégio 24 de Abril, de Jardim, mantinha internato, externato e semi-internato e era misto, isto é, para rapazes e moças, provando o espírito de vanguarda pedagógica de sua direção. Não há dúvidas: foi o Colégio 24 de Abril que fez a juventude de Jardim voltar-se para a instrução, transformando a bonita 'Terra de Barbosa de Freitas' em celeiro de músicos, poetas, médicos bacharéis e outros profissionais liberais. Salve o Colégio 24 de Abril, célula máter da instrução do Cariri de outrora" (Jardim: sua história e sua gente, p.65, 204)

13. EXTERNATO MISTO SANTA FILOMENA

                 O “Externato Misto Santa Filomena”, um estabelecimento de ensino instalado em Jardim no ano de 1927, em cuja frente se achava a educadora Raimunda Lemos. 


Por José Márcio da Silva

Fontes: 

Território dos Coronéis.

Jardim: sua história e sua gente.

Jardim, suas contradições seu folclore.

IBGE

PEDRO VIEIRA CAVALCANTE - PRIMEIRO CRIME DE LAMPIÃO NO CARIRI

Por Bruno Yakub. Do blog A Munganga. 

Conteúdo constando no livro: Jardim, de João Calangro a Lampião.

O PRIMEIRO CRIME DE LAMPIÃO NO CARIRI CEARENSE

Em 31 de janeiro de 1927 (segunda-feira), Lampião e seu bando, livres de qualquer perseguição, passam pelo sítio Salvaterra em Brejo dos Santos (atual Brejo Santo), com destino ao tabuleiro da Serra do Araripe.

Logo depois, ainda nas horas mortas da noite, veio a volante cearense do tenente José Gonçalves Bezerra que, quebrando à esquerda do Salvaterra, buscou o sítio Guaribas, já em Porteiras, seu real objetivo: dar cabo ao Cel. Chico Chicote, Nêgo Marrocos e os homens do Salvaterra.

Aqui é importante mencionar que no início de janeiro de 1927, Lampião e seu bando passaram por duas vezes no Cariri nesse mesmo mês, sendo que inicialmente, vindos de Pernambuco, em direção a Paraíba e na volta, aconteceu o episódio que está sendo relatado. Lampião e seu bando apesar de terem entrado no Ceará livres de qualquer perseguição, na verdade, eles já vinham fugindo das forças volantes do Pernambuco, da Paraíba e do próprio Ceará. Ainda no mês de janeiro de 1927, na Paraíba, Lampião na tentativa de acertar contas com Marcolino Diniz, pois havia deixado sob seus cuidados, dinheiro e joias, teria dificuldade para chegar à região da Fazenda Patos, próximo à Princesa Isabel, onde fora expulso em 1924. A meio do caminho entre os povoados de Santa Cruz e Patos, no Sítio Sozinho, de Andrelino Inácio, o bando faz parada e é atacado pelos soldados contratados Raimundo e Chiquito, ao qual são fuzilados e queimados com coivara e querosene. No dia seguinte, o coronel Zé Pereira, enfurecido, reúne seus auxiliares e expulsam o bando da região.

Logo no início de janeiro, na primeira passagem pela região, Sabino Gomes foi à Serra do Mato encomendar a Júlio Pereira, um punhal grande com lâmina de espada, cabo enterçado de prata com alianças de ouro e bainha de níquel. Além dessa encomenda, Sabino queria ainda a confecção de vários fardamentos para seus cangaceiros. O Lugar-Tenente de Lampião forneceu ao intermediário, dinheiro mais que suficiente para as encomendas já citadas e também para aquisição de dois sacos de balas. receberia tudo oportunamente, na próxima passagem pela região. (LUCETTI, 1995).

Com isso, voltando da Paraíba, estando entre 80 e 115 homens e todos montados, entraram no Cariri cearense com um sequestrado trazido do Estado vizinho, que conseguiu escapar posteriormente, com a confusão gerada pelo Fogo de Ipueira dos Xavier.

Uma vez no planalto da Chapada do Araripe, depois de terem desfrutados um cesto de mangas ofertado por dona Celina, esposa de Antônio Gomes Grangeiro, no sítio Salvaterra, Lampião e sua cabroeira mataram a sede dos seus animais na lagoa da Malhada Funda, já no município de Missão Velha. Já era 1° de fevereiro e por volta das sete horas da manhã, o Ten. José Gonçalves Bezerra inicia o massacre a Chico Chicote, também assinando Nêgo Marrocos, o próprio Antônio Gomes Grangeiro e seus jagunços, que ficou conhecido por Otacílio Anselmo como a Tragédia das Guaribas. Da Malhada Funda, ouvia-se o pipocar dos tiros nas Guaribas.

Em seguida, Lampião procurou o sítio Serra do Mato, onde não encontrou o coronel Santana, seu protetor e nem Júlio Pereira, para receber suas encomendas feitas dias atrás. Por isto, Lampião ficou irritado, pois dera viagem perdida. Nem dinheiro, nem munição, nem fardamento, quando seu grupo precisava das três coisas. É sabido que Lampião guardava joias e dinheiro no cofre do seu amigo, coronel Santana.


                   (Escombros do casarão do coronel Santana, Serra do Mato, em Missão Velha - CE.)
 

Contrafeito, no dia seguinte, 02 de fevereiro, Lampião atravessou a Chapada do Araripe, guiado por um morador de Antônio Coelho, chegando ao barreiro das Cacimbas, serra de Jardim, ponto de encontro dos vaqueiros de todo o Cariri. 

Para quem não estava a par dos acontecimentos, estabeleceu-se grande confusão. Lampião não poderia estar ao mesmo tempo em Guaribas e Cacimbas, separadas por seis léguas, quando o tiroteio continuava aceso e intenso nas Guaribas.

Em dado momento, conversando ao lado de uma cerca, à margem do barreiro esperando gado, os vaqueiros foram surpreendidos com a aproximação de um bando de cangaceiros. A seguir, outro grupo surgiu no lado oposto, tendo a frente Lampião. Nisto, seu guia disse que um dos vaqueiros era Pedro Vieira Cavalcante, proprietário da fazenda Apertada Hora (Serrita - PE), vaqueiro do seu próprio gado, que tinha amigos e compadres em Jardim, que ficava dali a mais ou menos duas léguas. Estava, assim, selada a trágica sorte do fazendeiro-vaqueiro.

O outro vaqueiro era Vicente Bezerra de Menezes (Vicente Venâncio) que, esperto, ludibriou os cangaceiros e fugiu a pé, arrastando-se pelo chão e depois em desabada carreira, por dentro da mata, sumiu.

O terceiro vaqueiro era Mauro de seu São, da família Sá Barreto (Barbalha), que, por ser jovem, foi encarregado por Lampião de levar até Jardim o pedido de resgate pela liberdade de Pedro Vieira Cavalcante, com recomendação do mesmo ser entregue ao Intendente local, coronel Dudé, José Caminha de Anchieta Gondim (pai do monsenhor Dermival de Anchieta Gondim), conceituado boticário da cidade, e ao senhor de engenho Urias Novaes, por ser rico e compadre de Pedro Vieira Cavalcante. (1)

O quarto vaqueiro era José Luiz, que continuou detido pelo bando, sendo solto por volta de meio dia, quando Lampião resolve levantar acampamento e partir para o rumo de Jardim.

Juntar cinco contos de réis em Jardim não era tarefa fácil, sobretudo porque ali não havia banco. O dinheiro teria de ser conseguido com donativos dos amigos do prisioneiro. Lampião ficou esperando o resgate lá mesmo, na baixa das Cacimbas.

Como o resgate custasse a chegar, Lampião mandou avisar que ficaria esperando a resposta ao seu pedido na fazenda Barra da Forquilha, ainda em Jardim, em seguida entrando no estado de Pernambuco conduzindo o prisioneiro.

Em jardim os homens ricos da terra se cotizavam até que conseguiram juntar três contos de réis, remetidos para a fazenda Barra da Forquilha pelo marchante José Pedro "Rabada", que seguiu a cavalo.

Pois bem, um vez na Barra da Forquilha, Lampião deixou Pedro Vieira Cavalcante sob a guarda do cangaceiro Balão e seguiu com seu grupo para a vila de Ipueiras dos Xavier, sendo recebido por 14 homens e farta munição, acabou perdendo o combate, como aconteceria na vila Belém do Arrojado, atual Uiraúna - PB, em 15 de maio de 1927, como também em Mossoró - RN, em 13 de junho de 1927.

Com pouca munição e sem dinheiro, Lampião bateu em retirada, buscando os sertões pernambucanos de Leopoldina, hoje Parnamirim, mas antes de sair, o cangaceiro Balão matou Pedro Vieira Cavalcante com um tiro no ouvido, que ainda estava encourado com as vestimentas de vaqueiro. Momentos depois chegou o dinheiro do resgate, já fora de tempo, infelizmente. Já era 03 de fevereiro de 1927.

Segue uma análise de Napoleão Tavares Neves sobre a morte de Pedro Vieira Cavalcante, inserida no livro Cariri Cangaço, Coiteiros e Adjacências, Crônicas Cangaceiras, págs. 46 e 47, editora Thesaurus, Brasília, 2009:

Em fevereiro de 1927, deu-se o assassinato frio de Pedro Vieira Cavalcante, nas proximidades do povoado de Ipueiras, município de Leopoldina, à época (2). O bando de Lampião o prendera no lugar Cacimbas, na chapada do Araripe, e o levou até o lugar, onde o matou com sanha brutal.

Por que, desta vez, Lampião não teve atenção ao padre Cícero? Sim, por que? Simplesmente por isto: Lampião não mexia com o Cariri porque não era besta de cortar o aberto canal de comunicação, onde se abastecia de armas e farta munição. Só isto! Lampião era ignorante, porém inteligente! Se ele entrasse no Cariri atirando a torto e a direito, fecha-se-ia para ele o caminho para a Serra do Mato, fonte inesgotável de suprimento para seu bando. Não era em atenção ao padre Cícero a quem ele, obviamente, tinha atenção como todo sertanejo, mas não a ponto de, por causa dele, não mexer com o Cariri. É mais uma balela criada por historiadores.


Pois bem, Pedro Vieira foi aprisionado em Cacimbas que é Jardim e Jardim é Ceará. Onde, pois, a atenção de Lampião ao Cariri, por causa do padre Cícero?! Pedro Vieira foi levado por Lampião pela fazenda Barra da Forquilha e morto com um tiro no ouvido, desferido pela cangaceiro "Balão", no povoado Ipueiras dos Xavier. E aqui uma pergunta: - Por que sempre "Balão", nessas execuções?


Portanto, desta vez não apareceu em Lampião a atenção ao padre Cícero, simplesmente porque, chegando a Serra do Mato, não encontrou nem o coronel Santana, nem Júlio Pereira, ficando desesperado, sem dinheiro e sem munição. Perdeu o "Fogo de Ipueiras" contra 14 homens dos Xavier, cada um com 400 cartuchos. Gente alegre, inteligente, disposta e aguerrida, a família Xavier deu sobeja demonstração de decisão. E no fragor da luta ainda gritavam: "Bota uma retaguarda, compadre Chico Romão", cujo irmão Romão Sampaio Filho era genro do chefe dos Xavier, coronel Pedro Xavier, delegado de Polícia da vila de Ipueiras. Repito: Ipueiras, perdida nos confins dos sertões pernambucanos, antecipou-se a Mossoró (e a Uiraúna), rechaçando Lampião.


E este é considerado o primeiro crime praticado por Lampião e seu bando no Ceará, na chamada "Era Lampiônica".

Segue entrevista cedida por Vicente Bezerra de Menezes, o vaqueiro que conseguiu fugir do cerco de Lampião ao barreiro das Cacimbas, e publicado pelo jornal O Ceará. Nessa entrevista, temos a sua versão para os acontecimentos ocorridos.

 

 

"JORNAL DO RECIFE, SÁBADO, 12 DE MARÇO DE 1927

MAIS UMA FAÇANHA DE LAMPIÃO

Sobre esse título transcrevemos d’O Ceará , jornal que se publica em Fortaleza a seguinte entrevista:

“O QUE NOS DISSE UM CRIADOR DE JARDIM QUE FOI PRISIONEIRO DO TEMÍVEL BANDIDO – UM CRIADOR FUZILADO PELOS BANDOLEIROS – COMO NOSSO INFORMANTE EVADIU-SE - OUTRAS NOTAS

Por ocasião da sua visita ao Ceará que serviu de pretexto à inominável carnificina de Guaribas, Lampião, o célebre bandoleiro, e o seu sinistro grupo cometeram toda sorte de crimes.

Achando-se nesta capital desde quinta-feira última o Sr. Vicente Bezerra de Menezes, criador em Jardim, que foi uma das vítimas do célebre cangaceiro, que o fez prisioneiro por muitas horas, procuramos ouvi-lo, o que conseguimos ontem na redação desse jornal.

Entretivemos com o ex-prisioneiro do capitão Virgulino a seguinte palestra:

- Pode dizer-nos a fim de transmitirmos ao público, como foi aprisionado por Lampião?

- Pois não. No dia 10 do corrente (dia 02 de fevereiro de 1927), achávamos eu, Pedro Vieira, José Luiz e outro companheiro de nome Mário do lugar Baixa das Cacimbas, examinando diversas cabeças de gado, quando, precisamente às sete horas da manhã, fomos cercados pelo grupo de Lampião, chefiado por este sendo composto por cerca de oitenta bandidos.

 Apavorados, não tivemos um gesto de defesa. Ninguém tentou fugir. Todos ouvimos aterrorizados a voz de prisão.

- Todo bando estava montado?

- Admiravelmente montado. Todos os cangaceiros estavam armados de fuzil mauser e rifle, Lampião trajava roupa de casimira e chapéu americano.

- O que deseja os bandidos?

- Depois de dar-nos voz de prisão, mandou Sabino, seu lugar tenente tomar-nos os cavalos. 

Em seguida, o temível bandoleiro, com voz arrogante, dirigiu-nos a palavra perguntando: - Quem é Pedro Vieira?

O nosso companheiro respondeu com a voz sumida: - Sou eu.

O bandoleiro, desmanto-se se dirigiu a Pedro Vieira, dizendo-lhe que o mesmo era seu prisioneiro e seria fuzilado caso não mandasse cinco contos de réis.

O nosso companheiro declarou a Lampião que era pobre e não dispunha daquela quantia, pedindo-lhe, por isso, que reduzisse para dois contos de réis o preço de sua liberdade.

Com um riso sarcástico, o cangaceiro respondeu que ninguém o enganava e que sabia, perfeitamente, por informação segura, que Pedro Vieira tinha regular fortuna. Fingindo generosidade, o bandido apontou para outro prisioneiro trazido da Paraíba, dizendo: - Eu podia cobrar mais pela vida, mas só peço cinco contos. Por aquela que está ali, que é dos Marçal, da Paraíba, eu pedi quinze contos e o dinheiro tem que vir. Do contrário ele morre.

Diante de tão crítica situação, o nosso companheiro Mário ofereceu-se para ir buscar a importância pedida para o resgate.

Lampião concordou com a proposta, recomendando a Mário que não fizesse alarma em Jardim. Combinou que sairia ao meio-dia para a ladeira de Belém, onde esperaria pelo dinheiro. O cangaceiro mandou entregar um cavalo a Mário, que partiu a toda brida para Jardim.

Logo depois, Lampião matou, com um tiro de rifle, um boi, ordenando a um cabra que sangrasse o animal e lhe tirasse o couro.

Nesse momento, Sabino interveio, pedindo: - Capitão, mate outro porque um só não chega. São 115 homens.

 O pedido foi atendido. Triste, sentado a um canto, ouvindo insultos dos bandidos, pensava em conseguir um meio de fugir, quando foi interpelado pelo Capitão, que comigo travou o seguinte diálogo: 

- O senhor é mesmo de Jardim.

- Sou.

Ao ouvir essa afirmativa, um cangaceiro disse, rindo-se: - Temos peixe no anzol! Lampião continuou o interrogatório, que era para mim um suplicio. 

- É verdade que meus irmãos estão presos em Jardim?

- Não. Soube que eles passaram por ali conduzidos por uma força de polícia.

- Quem era o oficial que comandava a escolta?

- Não estava em Jardim e por isso não sei informar.

- Eu sei quem, mas queria ter certeza. Disseram-me que foi o sargento Firmino. Esse canalha terá que ajustar contas comigo. Eu tenho fé em Deus que ainda nos havemos de encontrar.

Nessa altura, o bandoleiro encolerizou-se dirigindo os maiores insultos ao sargento Firmino.

Ás (...ilegível) horas, depois de mil peripécias consegui fugir aproveitando para isso um mandado de Sabino, que me designara ir à procura de um cavalo. Quase correndo, percorri cinco léguas, até chegar a ladeira do Gravatá. Fui para Jardim e lá encontrei Mário providenciando para a aquisição de cinco contos de réis exigidos para a liberdade do nosso companheiro.

- Não nos pode dizer o que ocorreu após a fuga?

- Posso, por informação de José Luiz, que esteve com o grupo até a hora em que Lampião resolveu levantar acampamento.

Ao meio dia, pouco mais ou menos, o bando sinistro marchou para Belém, dando liberdade a José Luiz.

De Jardim partiu portador para Belém, levando os cinco contos de réis para o resgate de Pedro Vieira. Infelizmente, o portador não alcançou Lampião em Belém, que por ali já havia passado.

Naquela localidade, a horda de bandidos cometeu toda a sorte de depredações e horríveis perversidades.

De Belém, os bandoleiros rumaram para Ipueiras, povoado pernambucano, onde foram recebidos à bala.

Ao inciar-se o tiroteio, Lampião indagou ao guia quantos homens os Xavier, chefe da localidade podiam reunir, no momento.

O guia informou que aquela família tinha elementos para reunir, imediatamente sessenta homens, podendo, dentro de poucas horas, uma retaguarda de duzentos a trezentos homens. Em virtude dessa informação, Virgolino, que já perdera um bandido, resolveu recuar.

Nesta ocasião, o bandido determinou o fuzilamento de Pedro Vieira, que foi trucidado.

Soube, por informações chegadas a Jardim, que o prisioneiro paraibano, aproveitando a confusão estabelecida pela luta conseguira fugir.

São essas informações que posso prestar ao seu jornal."

 

 

Por Bruno Yacub Sampaio Cabral 



Notas

(1) Lembrando que em março do ano anterior, 1926, Lampião e seu bando, foi recebido em Jardim pelo próprio intendente, coronel Dudé, como Capitão do Batalhão Patriótico de Juazeiro, chegando a pernoitar na localidade. N. A.

(2) A vila de Leopoldina hoje é chamada de Parnamirim. O distrito Ipueiras atualmente pertence à cidade de Serrita, na época chamada de Serrinha, ambas no estado de Pernambuco. N.A.

Fonte bibliográfica:

- SILVA, Otacílio Anselmo e; Tragédia de Guaribas; em revista Itaytera N° 16; Instituto Cultural do Cariri; Crato – CE; 1972;

- SILVA, Otacílio Anselmo e, Surpreendente e condenável comportamento de Lampião no Ceará, em revista Itaytera, n°19, Instituto Cultural do Cariri, Crato - CE, 1975;

- NEVES, Napoleão Tavares, Cangaço, Crônicas e Adjacências, Crônicas Cangaceiras, editora Thesaurus, Brasília - DF, 2009;

- BONFIM, Luiz Ruben F. de A., Lampeão em 1927, A marcha dos bandidos, editora Oxente, Paulo Afonso - BA, 2019;

- IRMÃO, José Bezerra Lima; Lampião, A Raposa das Caatingas; 4ª Edição; JM Gráfica & Editora Ltda; ; Salvador; 2018;

- LIRA, João Gomes; Memórias de um soldado de volante; FUNDARPE; Recife; 1990;

CARVALHO, Rodrigues; Lampião Seus Sequazes; 2ª edição; Sedegra; Rio de Janeiro; 1974;

LUCETTI, Hilário e LUCENA, Magérbio de; Lampião e o Estado maior do Cangaço; Gráfica Universitária; 1995;

- MACIEL, Frederico Bezerra; Lampião eu Tempo e Seu reinado; Volume 3; Editora Vozes; 1988;

- DANTAS, Augusto de Sousa, Lampião na Paraíba, Notas para a história, editora Polyprint, Natal- RN, 2018;

- MELLO, Frederico Pernambucano de, Entre Anjos e Cangaceiros, editora Escrituras, São Paulo - SP, 2012;

- XAVIER, Maria do Socorro Cardoso; A Saga de um clã Xavier; Sal da Terra Editora; João Pessoa; 2012;

- FIDELES, Antônia; Cordel O Fogo de Ipueira; Folhetaria de Cordel; João Pessoa; 2015.

DERMIVAL DE ANCHIETA GONDIM - FILHO DO CORONEL DAUDET

                                   Jardim no fundo do vale. O Padre Dermival a cavalo.

                 O Padre Dermival de Anchieta Gondim no cruzeiro do século, de Jardim.

 Dermival de Anchieta Gondim: Um Homem de Fé e Respeito

(Do blog A Munganga. Por Bruno Yakub) 

Especial 129 anos de Brejo Santo - CE

26 de agosto de 1890

26 de agosto de 2019

                      O Padre Dermival em Jardim, numa época de fogueiras de São João.

Por ocasião das comemorações alusivas à Semana do Município de Brejo Santo, fui convidado pelo amigo Mateus Silva para colaborar com o primeiro número da revista O BREJO. Eis minha contribuição, uma singela homenagem ao Monsenhor Dermival de Anchieta Gondim, um homem que tem realizado muitos bons feitos na nossa terra e merece receber sempre todo o reconhecimento.

Aproveito o momento para desejar boa sorte a Mateus Silva, com sua revista. O curioso jovem brejo-santense, amante da informação, administrador de um blog que leva seu nome, distribui novidades a todos os recantos da Terra da Pedra do Urubu, somando qualidade à imprensa municipal e caririense.

Obrigado, Bruno Yacub, que tem se empenhado na digitalização do imenso acervo fotográfico do Monsenhor Dermival. Parabéns, meu amigo, por relevante trabalho.

    (O Padre Dermival de Anchieta Gondim e seu pai, José Caminha de Anchieta Gondim, o Coronel Dudé (Daudet - francês)

DERMIVAL DE ANCHIETA GONDIM

Um Homem de Fé e Respeito

Dermival nasceu em 1930, em Jardim - CE, no dia de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em berço de ouro, no seio de uma família abastada. Desde criança, quando a mãe o tomava nos braços, profetizou olhando fixamente aqueles dois olhinhos azuis:

- Finalmente nasceu meu padre!

Dona Doralice Luz se surpreendeu quando Dermival, já um adolescente, anunciou contente que poderia fazer o enxoval dele, porque seguiria os votos, como almejava o sonho materno. Aos doze anos, levado ao Seminário do Crato pelas mãos do pai, o prestigioso Coronel Daudet, o menino foi aos poucos compreendendo seu chamado, engajando-se para abraçar definitivamente o sacerdócio. O garoto chegou a recusar uma possibilidade de estudar na Europa, porque estava intimamente ligado às suas raízes, ao Cariri e a uma paixão especial que nascia consigo naqueles tempos: uma motocicleta.

Descer a Chapada do Araripe, do Crato até Jardim, era uma das experiências mais prazerosas que aquele seminarista se entregava. A velocidade e o vento no rosto, com aquele cheiro verde e úmido, tinham o gosto de uma incomparável liberdade. Tudo fazia pensar que sofreria muito se se ausentasse dali. No Ceará, ele poderia realizar suas ambições.

Ordenou-se aos vinte e seis anos, celebrando sua primeira missa na terra natal. Três meses depois, recebeu a notícia de que o bispo o nomeara para assumir temporariamente a paróquia de Brejo Santo, pastoreada pelo sofrido padre Pedro Inácio Ribeiro, acometido de uma artrite reumatoide que lhe paralisava gradativamente o corpo. Lá, Dermival seria o vigário cooperador.

Feliz e animado por finalmente poder iniciar a prática da obra de Deus, resolveu chegar cedo, no dia seguinte, até seu destino. "Seria um excelente passeio pela serra molhada pelas chuvas de março trazidas por São José", pensou o jovem.

A manhã daquela quinta-feira, 07 de março de 1957, amanheceu cinzenta. Uma cerração cobria toda a cidade e caía uma neblina calma e silenciosa, depois e uma madrugada inteira de tempestade. O padre adivinhava que a estrada não estaria em muito boas condições, o que não chegou a desanimá-lo, mesmo com insistência do octogenário pai, que julgava um disparate fazer uma travessia daquelas em uma motocicleta. Seria mais prudente ir a cavalo. Mas Dermival estava decidido. Recentemente havia trocado sua motocicleta por uma maior, mais vigorosa, que não o faria temer, pois, antes de tudo, ia em nome de Deus e da Santa Mãe.

Saiu de casa pouco antes da seis. A viagem foi realmente uma aventura. As estradas estavam péssimas. Em um determinado trecho alagado, precisou do auxílio de alguns transeuntes, que o ajudaram a atravessar a moto nos braços e carregá-lo nos ombros, pois não sabia nadar.

A velocidade na estrada, o vento forte e o calor do sol secaram logo a batina molhada, que exibia principalmente as barras amarrotadas de lama.

Quando a moto adentrou na Avenida Santos Dummont, derrubando com o rastro veloz, uma tabuleta de cartaz do Cine Itamaraty, foi um acontecimento. Quem passeava pelo comércio parou para ver aquela inusitada figura: decerto seria o novo padre cooperador, a batina não deixava mentir. Era um padre aventureiro. As crianças se alvoroçavam e corriam atrás daquela novidade.

Padre Pedro estava na calçada da casa paroquial, quando viu a motocicleta se aproximar, trazendo um jovem distinto, que logo anunciou sua missão:

- Boa tarde, padre Pedro. Sou Dermival, o novo vigário cooperador.

                                          (O Padre Dermival em sua motocicleta.)

O adoentado pároco esboçou um sorriso de satisfação. O bispo mandava-lhe um menino! Vendo o jovem padre com uma pequena bolsa, certamente seus pertences mais pessoais, e aquele estado de suas roupas, pensou: "O rapaz precisa de um banho, de descanso." Indicou a casa do cooperador ali perto, onde ele deveria se hospedar, quem sabe repousar um pouco...

- Nada disso, padre Pedro. Eu vim para morar com o senhor!

- Mas meu filho, aqui não é morada para um rapaz como você. Aqui não tem o conforto a que está acostumado. Aqui tudo é muito simples. O que você tem a ganhar morando com um velho padre e suas irmãs doidas?

- Pois acaba de chegar mais um doido, padre! - E ambos riram-se.

A notícia do novo padre foi o acontecimento da semana. A Matriz estava mais lotada do que o de costume. Todos se apinhavam concentrados para assistir àquele sério e instruído rapaz, de voz grave e português escorreito, cooperar com o andamento das missas, ás vezes, celebrá-las por inteiro, considerando a frágil saúde do vigário maior. 

Espalhava-se a fama de sua beleza e daquele exotismo: um homem intocável e imaculado, com estampa de artista de cinema, sobre uma motocicleta pelas estradas daqueles sertões adentro, celebrando missas e ministrando sacramentos.

As beatas diziam:

- Parece um anjo de luz!

As moças cochichavam:

- É até pecado deixar que moços bonitos assim se ordenem padres...

Foi preciso uma campanha de cima do púlpito para aplacar uma onda de paixonite coletiva. Aos poucos, aquele sonho utópico e adolescente arrefeceu nas moças mais insistentes, diante da seriedade e convicção do novo padre, firme de sua missão. Sentia-se cada vez mais pertencente àquela gente amiga, que o acolhia a um irmão.

De visão empreendedora, fez muitos investimentos na cidade, como uma fábrica de mosaicos, uma madeireira, uma farmácia e construção de muitos prédios. Em 1965, abriu um cinema: o Cine Paroquial, que exibia muitos clássicos, especialmente filmes bíblicos, de comédias e faroeste.

Seu cuidado com os bons rumos da paróquia inspirou no bispo de lhe dar definitivamente o título de pároco, pois o padre Pedro a cada dia estava mais impossibilitado de continuar no ofício. Dermival, entretanto, recusou aquela hipótese, pois seria cooperador de padre Padre até o fim dos seus dias.

Naquela altura, já era um homem de extremado respeito, de escudo moral intransponível. Se fosse feito um censo para eleger a maior autoridade de Brejo Santo, seguramente o padre Dermival seria o possível vencedor. Naturalmente, tornou-se conselheiro de homens respeitáveis.

Nos idos de chumbo da Ditadura, Brejo Santo teve militares vasculhando a cidade em busca de opositores das ideias do Governo. Era a caça aos comunistas. para levar esse infamante título, bastaria ter ideias libertadoras.

Um alto tenente da região foi consultar o padre Dermival sobre quem especialmente seriam três rapazes, suspeitos de subversão: Chico Andorinha, Zé Carlos e professor Bezerrinha. O padre garantiu-lhe que seriam somente estudantes, gente de boa família, convencendo-o de que exageravam naquelas infundadas denúncias. Foi o salvo-conduto, portanto, dos fervorosos rapazes.

Em 1973, padre Pedro dava sinais de que faria sua viagem celestial. Em vida, padre Dermival já o tinha como santo, diante de tanta resignação para com a traumática doença. A artrite acarretava-lhe ondas de dores insuportáveis, inchaço nos membros, roubando-lhe os movimentos, sem falar na gradativa cegueira. Quanto mais sofria, mais orava. Testemunha daquele silencioso calvário, o padre cooperador veio assumir definidamente a paróquia depois que se fechou a pedra de mármore sobre o corpo santo de Padre Pedro Inácio Ribeiro. 

Sepultado no interior da Igreja Matriz, o Brejo poderia dizer que agora tinha um santo. Se vivo Padre Pedro operava milagres, ao lado de uma milícia de anjos, passou a derramar graças infindáveis sobre aquela terra.

Anos depois, passou a residir no bairro São Francisco. Naquelas terras dadas pela fé para apadrinhamento do santo humilde e generoso, reconstruiria o Santuário, destruído por uma forte chuva. A obra inspiraria mais nosso povo sobre os ideais franciscanos.

Tornou-se um dos homens mais respeitados pela Igreja. Recebeu o título de Monsenhor e, a partir de 2005, passou a ser Vigário Geral da Diocese do Crato.

Deixa para Brejo Santo um legado firme, de respeito, moral, empreendedorismo e devoção no Sagrado Coração de Jesus, em São Francisco e na Virgem Maria.

Hérlon Fernandes Gomes - Porto Velho, 03 de agosto de 2019.

Para Chico de Sinésio, proprietário do Bar Caldeira do Inferno. Certa vez, em uma reunião da Diocese, uma autoridade eclesiástica teria perguntado ao padre Dermival se era verdade que em Brejo Santo havia uma Caldeira do Inferno. O Padre respondeu que na verdade, sim, mas não havia porque se preocupar, lá todos os "cãos" eram seus amigos.


Referências bibliográficas:

- Sá, Francisca Aldeniza de, Monsenhor Dermival, Um resgate histórico, Instituto de Formação e Educação Teológica, Curso de Graduação em História, Brejo Santo - CE, 2014;

- Moreira, Maria e Fátima Alves, Monsenhor Dermival, Uma história de vida, editora da Autora, Brejo Santo - CE, 2016;

- Cavalcante, Francisco Mirancleide Basílio, Memórias de Brejo Santo, Dados biográficos dos homenageados em logradouros públicos, Brejo Santo - CE, 2001;

- Entrevista com Monsenhor Dermival, realizada em 31 de julho de 2019, em Brejo Santo - CE;

- Entrevista com Chico de Sinésio, no Bar Caldeira do Inferno, 10 de agosto de 2019.

 

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